Sunday, 19. May 2013
DeutschEnglishEspañolFrançaisPortuguêsРусскийSvenskaItalianoTürkçePolish
26. November 09 , 14:53

A caravela portuguesa está em vias de colonizar o Mediterrâneo?

Category: Ciencia
Berlim / Alemanha (Weltexpress). Largada assim, sem mais explicações, a pergunta soa estranha. Afinal, as caravelas portuguesas cruzaram praticamente todas as águas do mundo, há já muitos séculos, mas a sua principal virtude era exactamente a capacidade de navegar com ventos contrários, possibilitando a exploração dos grandes mares exteriores - e não interiores, como o Mediterrâneo. Então por que motivo esta questão se levanta em pleno século XXI? Porque não estamos a falar de navios, estamos a falar de uma espécie marinha, a Physalia physalis.

Cientistas espanhóis ouvidos pelo jornal espanhol El Mundo dão conta de um número crescente de avistamentos de caravelas-portuguesas nas águas do Mediterrâneo, relativamente perto das costas espanholas. Soaram os alarmes: grandes concentrações de medusas nesta zona têm sido notícia em anos anteriores, mas a caravela-portuguesa não é apenas mais uma medusa. Os seus longos tentáculos urticantes podem ser letais.
O biólogo espanhol Xavier Pastor levanta mesmo a hipótese de esta súbita proliferação da espécie no Mediterrâneo poder ser um primeiro sinal de que as alterações climáticas estarão a criar condições para uma colonização do mar interior que separa a Europa de África por esta espécie, com apetência por águas mais frias. As caravelas-portuguesas, diz, não eram vistas nesta área há cerca de uma década e, a confirmar-se o cenário de um alargamento da sua área de acção, isso "seria um problema, porque realmente são muito perigosas". Ignacio Franco, do Centro Oceanográfico de Los Alcazares, região de Múrcia, especifica: "Entre 30 a 50 por cento das pessoas afectadas pela caravela-portuguesa podem ter de ser hospitalizadas."
Mas o biólogo marinho português Pedro Ré deita água na fervura. "É preciso ter cuidado quando se fala nestas questões das alterações climáticas. Só com estudos mais profundos se podem tirar conclusões sobre a eventual modificação de hábitos da Physalia e não creio que esse seja um cenário plausível." Salientando sempre que a realidade do Mediterrâneo é completamente diversa da que se verifica nas costas portuguesas, onde não se recorda de qualquer incidente com a caravela-portuguesa, o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa desdramatiza os alertas que chegam de Espanha.
Tentáculos gigantes
Embora o artigo do El Mundo classifique a caravela-portuguesa como a medusa "mais perigosa do mundo", Pedro Ré salienta que a picada dos seus tentáculos urticantes só é "letal em condições muito especiais": "Se uma pessoa tiver problemas de coração, ou se sofrer de alergias, se for picada várias vezes, aí, sim, é muito perigoso. Noutros casos, dói, mas não mata."
Assustador, ainda assim. Não tanto quanto o verdadeiro pavor inspirado pela que será, realmente, a medusa mais antipática do mundo, a espécie Chironex fleckeri, conhecida na Austrália por Box Jelly. Os tentáculos deste bicho que flutua na costa Leste australiana (e que obriga a fechar as praias na época em que chega mais perto de terra) são muito venenosos e a sua picada deixa cicatrizes horríveis - diz-se que a dor provocada é de tal maneira atroz que as pessoas podem morrer de choque.
A caravela-portuguesa é menos sinistra, mas bem mais espectacular. Para começar, nem pode ser considerada uma medusa, uma vez que parte do seu corpo flutua acima da linha de água (e foi exactamente esta característica que lhe valeu o nome, uma vez que se assemelha à vela triangular dos navios com que os navegadores portugueses partiram à descoberta do mundo). Depois, o tamanho dos tentáculos (até 50 metros, nos casos mais extremos, embora sejam geralmente bem mais pequenos) impressiona qualquer um. Finalmente, tem o desagradável hábito de se juntar em grupos numerosos.
Por causa da sua "vela", a caravela-portuguesa pode ser impulsionada pelo vento e é isso mesmo que os cientistas espanhóis crêem que terá acontecido aos exemplares avistados no Mediterrâneo (em grupos de até 50, sinaliza o El Mundo), embora não ponham de parte outras pistas, como a abundância de alimento e a redução da população da sua principal predadora, a tartaruga-careta, ou tartaruga-boba. É a espécie de tartaruga marinha mais comum nos Açores, onde, salienta Pedro Ré, o avistamento de caravelas-portuguesas é "normal".
Nas costas de Portugal continental são muito raras e fenómenos como os ocorridos no Mediterrâneo em anos anteriores, com enormes concentrações de medusas perto das praias, "nunca aconteceram", analisa o biólogo português. "Muitos menos com Physalia..."

By: Javier Domingues

Weltexpress Fotostrecken

Fotostrecken