Thursday, 20. June 2013
DeutschEnglishEspañolFrançaisPortuguêsРусскийSvenskaItalianoTürkçePolish
14. February 12 , 14:23

Berlim aposta na emancipação do consumidor

Category: Cultura
Berlim / Alemanha (Weltexpress). Com o mote “Trust the taste“, o cinema culinário do festival de Berlim comemora de 12 a 17 de fevereiro a sua sexta edição. Essa mostra paralela ainda está longe de alcançar a popularidade de outras, estabelecidas há mais tempo na programação do evento. Mesmo assim o “Kulinarisches Kino” já age como multiplicador na capital alemã.

A prova disso é que sua fama já chegou a San Sebastian, nos países bascos, e na cidade de Poznan, na Polônia. Dieter Kosslick, há 10 anos no cargo de diretor do festival é um aficionado em agricultura biológica; em pão preto artesanal feito na padaria perto de sua casa, que com um garoto-propaganda desse cacife, já ficou famosa na cidade. Além disso, ele é discípulo de Carlo Petrini, pai do movimento Slow Food.

Cinema, agricultura biológica, valorização da cultura alimentar regional, não tem como resistir em passar pela cozinha de um dos principais festivais de cinema do mundo e fazer muito barulho. Da mesma forma como Petrini discursa em detalhes sobre as falcatruas dos Discounters. São supermercados a preços de banana e de qualidade duvidosa, visíveis em quase toda a esquina da Alemanha.

O Lema “Taste the waste” foi inspirado no filme que estreou nos cinemas alemães em setembro de 2011. Nele, o cineasta Valentim Thurn mostra, sem papas na língua, a situação diária de desperdício de alimentos no velho continente pelas razões mais mirabolantes possíveis. O filme gerou tanta polêmica que até mesmo fracções de diversos partidos agendaram uma discussão no plenário do Reichstag, o parlamento alemão.  Confira o trailler.

Durante semanas foi refletido publicamente sobre a verdadeira importância das datas de validade nos produtos. Chegou-se a conclusão de que o consumidor precisa confiar mais no seu paladar, no que os olhos vêem e no que o nariz cheira. Se a data de validade estiver vencida, mas o alimento não apresentar sinais de deterioração, ele deve sim, ser consumido. Essa é a opinião majoritária.

É também o argumento do fundador do Slow Food o aumento da conscientização dos consumidores: o que compramos, o que comemos e de como nos servirmos de reservas naturais. Isso na Alemanha já não é um simples modismo ou uma simples trilha de ser politicamente correto. Muito menos de alguns naturalistas e/ou membros do partido verde que em suas convenções não deixam de ter sempre uma maçã ou uma plantinha em cima da mesa, ou ainda, alguém fazendo tricot enquanto ouve longos discursos.

Essa conscientização já atingiu uma grande parte da população. E o cinema culinário no festival de Berlim, durante 10 dias é o espelho da Alemanha no mundo. Ratifica e ajuda a ampliar ainda mais essa tendência, mesmo que os eventos gastronômicos, incluindo filme, menu e bate-papo com chefs tenham o valor salgado de 59,00 Euros.

Essa tomada de consciência do consumidor é parte determinante na dicotomia de oferta e procura. Existe toda uma contextualidade:  da agricultura biológica, dos escândalos envolvendo produção de animais em massa e transporte ilícito de animas em caminhões pelo continente europeu. Até mesmo o desastre nuclear de Fukushima influencia o nosso comportamento no mercado de peixes, de frutas, se compramos tomates ou não. O alto estágio de globalização em que nos encontramos abrange não só a capacidade de se tornar distâncias geográficas irrelevantes, mas a capacidade seguir uma trilha comum.

Os encontros dos membros do movimento Terra Madre ratificam isso da melhor forma. O documentário “Food Inc”, o filme “Lixo Extraordinário” e “Tast the Waste”, para citar alguns, não surgem por acaso, mas está em sintonia com uma tendência mundial: o consumidor na procura do equilíbrio em sua região, em seu país e em sua cultura, numa prática diária.

Cinema Culinário tem seu caráter mais magnético devido a uma mistura do tipo goiabada com queijo. “Kulinarisches Kino”, em alemão, polonês ou em qualquer outro universo lingüístico, instiga principalmente pelo ritual de comer, degustar, emocionalmente acompanhado de lembranças de rituais de família, de amigos ou de um algum período, lugar, especial de nossas vidas. As uvas verdes recheadas da minha avó, a torta de frutas que minha mãe preparava para meu protesto, insistia em fazer com a cereja marrasquino e a presença certa em todos os aniversários da família, a limonada de meu pai depois de jogar ping-pong com os limões, não são só minhas. Centenas de outros cinéfilos experimentam esses Deja vú sensoriais frente à histórias contadas nas telas. Partilhamos isso com outros tantos desconhecidos no escuro de uma sala cinema.

"Kulinarisches Kino"

Um evento gastronômico, principalmente se for no contexto de um festival internacional precisa ter seu toque de glamour. Esse ano, sem a presença física de Carlo Petrini, esse toque fica por conta da ativista ambientalista Erin Brocovic’, mundialmente famosa quando vivida pela atriz norte-americana Julia Roberts no início dos anos 90. Brocovic’ estará em bate-papo com a jornalista alemã Susanne Kippenberger.

A escolha dos filmes na 6ª edição do Cinema Culinário é recheada de diversidade geográfica de forte foco no formato documentário.

São eles:

Canela, Mexico
De Jordi Mariscal
Com Ana Martín, Isabel Yudice, Norma Angélica, Mónica Dionne, Carlos Cobos

Canned Dreams, Finlândia
Documentário de Katja Gauriloff

The Chef, França
De Daniel Cohen
Com Jean Reno, Michaël Youn, Raphaëlle Agogué, Julien Boisselier, Salomé Stevenin,
Serge Larivière, Issa Doumbia, Bun Hay Mean

Step Up to the Plate, França
Documentário de Paul Lacoste

Hindsight, Coréia do Sul
De Lee Hyeon-seung
Com Song Gang-ho, Shin Se-kyung, Chun Jeong-myung

Joyful Reunion, Taiwan/China
De Tsao Jui-Yuan
Gua Ahleh, Huo Siyan, Lan Zheng-Long (Blue), Kenneth Tsang

Last Call at the Oasis, EUA
Documentário de Jessica Yu

Lupe of the Cow, Mexico
Documentário de Blanca X. Aguerre

Mugaritz B.S.O. , Espanha
Documentário de Felipe Ugarte, Juantxo Sardon

Oma & Bella Deutschland, EUA
Documentário de Alexa Karolinski

The Raw and the Cooked, Alemanha/Taiwan
Documentário de Monika Treut

Curtas-metragens:

Asparragos, Bélgica/Peru
Documentário de Laura Zuallaert

The Scarf , Espanha/Franca 2003
De Safy Nebbou
Com Pilar Rodríguez, Joseba Apaolaza, Olatz Beobide, Manu Gaigne

Living Food Communities, Itália
Documentário de Francesco Amato & Stefano Scarafia

Should The Wife Confess? Bélgica/Portugal
De Bernardo Camisão
Com Sofia Caessa, Hilbren Buys

* * *

* Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim e cobre o festival desde 1998. Formada em Letras no R.J e Gestão cultural na Universidade “Hanns Eisler”, em Berlim é atuante nas áreas de Jornalismo além de Curadora da Mostra “Perspectiva América Latina” na Oficina das Culturas (Werkstatt der Kulturen), Berlim.
@FatimaRioBerlim

By: Fátima Lacerda

Weltexpress Fotostrecken

Fotostrecken